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RESUMO DA OBRA

Por Roberto G. Dalefi

MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS
Manuel Antônio de Almeida

I.CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA
Na Europa, no final do século XVIII, dois acontecimentos fundamentais sinalizaram o caminho que tomariam as sociedades modernas: a Revolução Francesa e a Revolução Industrial. Esta se deu por ocasião do desenvolvimento do processo de produção: as fábricas adotam o sistema de linha de montagem e divisão do trabalho, acelerando enormemente a produção. Surge uma nova classe, o ploretariado. A burguesia ascende economicamente e passa então a questionar os privilégios e o poder da aristocracia. A Revolução Francesa (1789) vem como decorrência do crescimento das fábricas e do fortalecimento da burguesia.
De 1808 a 1821, época em que a família real portuguesa se instalou no Brasil, o desenvolvimento cultural e econômico de algumas cidades foi superior a toda história do Brasil-Colônia. D. João VI incentivou as reformas do ensino, a criação de faculdades e de tipografias, que deram origem aos jornais e às bibliotecas públicas.
Assim, a primeira metade do século XIX é marcada por uma crescente urbanização, principalmente do Rio Janiero, com seus profisssionais liberais, jovem estudantes, burocratas e barões oriundos da aristocracia rural, que formarão uma classe consumidora em busca de entretenimento. O jornalismo vai canalizar essa sede através de folhetins: neles, jovens escritores vão publicar capítulos de historias que se transformariam nos primeiros romances brasileiros. Essas histórias giravam em torno de tramas amorosas, onde personagens e paisagens idealizadas compunham um cenário romanesco que ia ao encontro das aspirações afetivas do público leitor daquela época.

II. O AUTOR
Manuel Antônio de Almeida nasceu no Rio de Janeiro, em 17 de novembro de 1831. Órfão de pais aos nove anos, tem que alternar os estudos com o trabalho para ajudar a sustentar a família. Aos dezessete anos ingressa na faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Na mesma época começa a trabalhar no jornal carioca Correio Mercantil.
Em 1849, publica seus primeiros poemas românticos. Três anos depois, começa a publicar semanalmente, num suplemento humorístico do Correio Mercantil, os primeiros capítulos de Memórias de um Sargento de Milícias, usando o pseudônimo "Um brasileiro". Em 1854 publica o primeiro volume de Memórias de um Sargento de Milícias. No ano seguinte publica o segundo volume, ainda sob o mesmo pseudônimo. Morre náufrago no navio "Hermes", quando se dirigia para mais um trabalho jornalístico em 1861. Somente em 1863 Memórias de um Sargento de Milícias foi publicado com o nome real de seu autor, Manuel Antônio de Almeida.

III. RESUMO DO ENREDO
A obra narra as aventuras de Leonardo, filho de Leonardo Pataca da Hortaliça, ambos imigrantes portugueses que haviam se conhecido a bordo de um navio. Ali, após uma pisadela de Leonardo no pé direito de Maria e um beliscão dela na mão esquerda dele, tornam-se amantes e passam a morarem juntos.
Sete meses depois nasce Leonardo, um "menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão: o qual logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem largar o peito."
Maria de Hortaliça era uma mulher muito leviana e costumava trazerem seus amantes para casa. Certo dia, Leonardo Pataca entra em casa sem ser esperado, flagrando Maria com alguém que escapa pela janela. No outro dia Maria foge com o capitão de um navio para Portugal. Leonardo Pataca abandona também a casa "onde tinha sofrido tamanha infelicidade", e Leonardo (filho) passa a viver com o padrinho, que era barbeiro. O padrinho afeiçoou-se pelo menino, tanto que fazia vistas grossas às traquinagens do garoto. O barbeiro queria fazê-lo clérigo, colocando-o na escola e mais tarde como coroinha da igreja. Entretanto suas travessuras só aumentaram. Enquanto isso, Leonardo (pai)estava pelas bandas do mangue da Cidade Nova, na casa de um caboclo velho, conhecido por suas feitiçarias. Leonardo havia se envolvido amorosamente com uma cigana que era tão leviana quanto Maria de Hortaliça. Ele ali estava ali para fazer com que o caboclo e suas orações lhe trouxessem de volta a cigana. Nesse momento surge a figura do major Vidigal, temido e respeitado por todos acompanhados por granadeiros armados de grossas chibatadas. O major acaba levando preso, entre outros, Leonardo Pataca.
Leonardo (filho), numa de suas travessuras, enveredou-se pelo largo de Rocio, no campo dos Ciganos, após ter seguido uma procissão que para lá se caminhava. Os meninos com os quais havia feito amizade na procissão estavam todos acostumados à vida vagabunda.
Entre os ciganos, a vida, na visão de Leonardo (filho), era uma festa constante: sem horários, sem higiene, só música e dança numa interminável comemoração.
D. Maria, uma senhora muito rica, tinha uma sobrinha, Luisinha (moça magra, desengonçada e mal arrumada), que acaba despertando em Leonardo(filho) uma estranha atração. Essa estranha atração transforma-se em amor e, mais tarde, em ciúme, devido à entrada em cena de um rival: José Manuel, rapaz de mais ou menos trinta e cinco anos de idade, magro narigudo e muito falador.
Nesse meio tempo, Leonardo Pataca, tendo esquecido a cigana, enamora-se por Chiquinha que era filha da comadre. Nasce desse amor uma menina, o que pões fim à desregrada vida amorosa de Leonardo Pataca.
Como dissemos em parágrafos anterior, José Manuel, agora rival de Leonardo, passa a freqüentar a casa de D. Maria, com um olho no coração de Luisinha e outro ba herança da família. Leonardo, enciumado, e sua madrinha tramam um plano caluniador para afastar José Manuel de Luisinha. Durante algum tempo essa estratégia funciona, até que José Manuel, ajudado por um mestre de rezas, consegue reconquistar a confiança de D. Maria casando-se finalmente com Luisinha. Antes desse casamento, morre o padrinho de Leonardo. Este vai morar com o pai.
Entretanto, com a convivência com Chiquinha (sua madrasta) torna-se insustentável, fazendo com que o pai o expulse de casa. Na rua, encontra um amigo companheiro de farra jogando baralho com outros rapazes. Entre eles havia uma mulatinha, Vidinha, que, cantando seduziu o coração de Leonardo. Desde então passa a morar com eles. Logo o major Vidigal fica sabendo da vadiagem de Leonardo e de seu paradeiro. Prende-o em meio a uma patuscada. No caminho, Leonardo consegue fugir, deixando o major enfurecido com o malogro de sua ação.
A comadre, madrinha de Leonardo, para evitar que o major Vidigal o conduza à cadeia arruma-lhe um emprego na ucharia real. Lá, entretanto, após tentar conquistar a companheira de um colega de serviço ("Toma-Largura"), é despedido. Novamente Leonardo é perseguido pelo major Vidigal, que desta vez consegue colocá-la na prisão.
Leonardo, conhecedor da vida marginal, torna-se granadeiro (policial), auxiliando o major uma vez que Vidigal via em Leonardo um caminho fácil para chegar aos arruaceiros e vagabundos. Mesmo com o cargo de policial, Leonardo continua aprontando, deixando, por exemplo, escapar propositadamente um bicheiro. È preso novamente. A madrinha sabendo da prisão do afilhado, procura uma ex-amante do Major Vidigal, Maria Regalada para que esta interceda a favor do relaxamento da prisão de Leonardo, que não só é solto, como promovido ao cargo de sargento da Companhia de Granadeiros.
José Manuel morre de um violento ataque apopléctico. Luisinha, agora viúva encontra-se com Leonardo no enterro: ambos ficam surpreendidos um com o outro, achando-se belos e elegantes, reacendendo a antiga paixão.
Como o cargo de "sargento de linha" impedia o casamento, mais uma vez o major Vidigal, estimulado pela Maria Regalada, consegue uma nomeação para Leonardo, agora como sargento de milícias. Assim sendo, após receber a herança deixando pelo padrinho, casa-se com Luisinha.

IV. ESTUDOS DOS PERSONAGENS

Leonardo
Filho de Leonardo Pataca e Maria da Hortaliça. É o personagem principal, o anti-herói do romance. Desde criança, metido em confusão: esperto, vadio, traquinas. Vive ás custas do padrinho barbeiro e sob proteção da madrinha, que o livra de muitas encrencas. Embora lhe falte a característica essencial que move o herói pícaro - a luta pela sobrevivência - , pode-se dizer que Leonardo representa muito bem o papel do astuto, do malandro. Sem se esforçar, Leonardo é sempre favorecido pela sorte e pelos arranjos dos amigos: sendo expulso de casa, no mesmo dia é acolhido por Tomás de Sé; perseguido e preso pelo major Vidigal, além de alcançar a liberdade consegue uma nomeação como soldado e mais tarde como sargento; morrendo o padrinho, herda uma herança; morrendo José Manuel, herda o coração de Luisinha.

Leonardo Pataca
Imigrante português, meirinho (oficial de justiça) meio ingênuo, sentimental, metido em desencontros amorosos. Sua primeira mulher, Maria de Hortaliça, foge para Portugal com um amante. Seu segundo amor, uma cigana, também o abandona. Com Chiquinha, finalmente, encontra a felicidade, tendo com ela uma filha.

Maria de Hortaliça
Imigrante portuguesa, ex-quitandeira "das praças de Lisboa", mãe de Leonardo, "saloia rechonchuda e bonitona", volúvel a ponto de levar os amantes para sua casa.

Comadre
Madrinha de Leonardo, baixa e gorda, bonachona e ingênua, vivia de oficio de parteira e era para Leonardo uma espécie de fada-madrinha, protegendo-o constantemente.

Compadre
Padrinho de Leonardo e seu protetor. Criou-se como se fosse seu próprio filho, fazendo vista grossa às estripulias do afilhado. Idealizou para Leonardo um futuro brilhante; no entanto, nunca o repreendeu pela vadiagem (típica no "herói" do romance).

D. Maria
Tia e tutora de Luisinha. Era velha, gorda, bondosa e viciada em demandas judiciais.

Major Vidigal
Era o chefe dos granadeiros (a policia da época). "Homem alto, não muito gordo, com ares de moleirão; tinha o olhar sempre baixo, os movimentos lentos, a voz descansada e adocicada". Entretanto, por ser enérgico, era a pessoa mais respeitada na região e por isso mesmo, a pessoa mais indicada para ocupar o cargo de chefe absoluto da polícia (dava caça aos criminosos, prendia-os, julgava-os e distribuía as penas condenatórias, sem oposição nem apelação).

Luisinha
Sobrinha de D. Maria. Quando Leonardo a viu pela primeira vez, ela era magra, pálida, tímida, trazia a cabeça baixa e andava sempre mal penteada. Apesar desse retrato não idealizado, ela se constituiu no primeiro amor de Leonardo. Luisinha casa-se com José Manoel; morrendo este, se casa com Leonardo.

José Manuel
Magro, narigudo, de olhar vivo e penetrante, mais ou menos trinta e cinco anos. Destaca-se na história pela maledicência e pelas mentiras que freqüentemente contava. Casando-se com Luisinha, deixa-a enclausura.

Vidinha
"Era uma mulatinha de dezoito anos a vinte anos, de altura regular, ombros largos, peito alteado, cintura fina e pés pequeninos; tinha os olhos muitos pretos e muito vivo, os lábios grossos e úmidos, os dentes claríssimos, a fala era um pouco descansada, doce e afinada. "Também cantava modinhas e tocava violas. Quando Leonardo a viu cantando, ficou boquiaberto e irremediavelmente apaixonado, esquecendo seu primeiro amor. É interessantes notar a caracterização diferenciada dada a Vidinha e Luisinha pelo autor: a primeira é sedutora e extrovertida, a segunda, cabisbaixa e melancólica.

Maria Regalada
Tinha esse apelido por causa da sua contínua alegria, ria-se de tudo demoradamente. Era amante do major Vidigal e conhecida de D. Maria. É através dela que Leonardo consegue se livras das punições e transformar-se em Sargento de Milícias.

Chiquinha
Filha da comadre. Casa-se com Leonardo Pataca, dando-lhe uma filha. Como madrasta, desentende-se constantemente com Leonardo filho, provocando-a expulsão dele de casa pelo pai, que o ameaça armado de espadim.

V. ANÁLISE DO FOCO NARRATIVO
O narrador em terceira pessoa conta-nos a trajetória de Leonardo(e de outros personagens contextuais) sob um ponto de vista divino(como diria Sartre) ou por trás dos fatos(como diria J. Pouillon): as vezes, como se estivesse de fora; outras, como se estivesse de frente; ora na periferia dos acontecimentos, ora nos centros deles. É o chamado "autor onisciente entruso" (categoria proposta por Norman Friedeman - "editorial Omniscience").
Sua característica fundamental é a intrusão, ou seja, o narrador, além de dar-nos detalhes através de sumários narrativos, expor-nos cenas e situações dramáticas, esclarecer-nos do que pensam as personagens (suas intenções), faz comentários sobre a vida, os costumes, os hábitos, os vícios, a moral da época, e na obra em questão, fá-lo com sarcasmo, humor e ironia muito freqüentes. De certa forma, pode-se dizer que Manoel Antonio de Almeida, também antecipa, com suas (poucas, entretanto importante) digressões (2ª parte, capítulo 22, parágrafo 13), conversas com o leitor (1º parte, capítulo 3, parágrafo 4 e 2º parte, capítulo 22, parágrafo 12); técnicas narrativas que iriam caracterizar, mais tarde, a obra do maior escritor brasileiro Machado de Assis.

VI. ESTUDO DA LINGUAGEM E ESTILO

Apesar de escrito entre 1852 e 1853 no auge do ultra-romantismo do Brasil, Memórias de um Sargento de Milícias, afasta radicalmente dos princípios de construção dos romances do período. E nenhum momento idealiza personagens, cenários ou dramas, do romantismo herdou um lacônico final feliz, com toque metalingüística (Queria, muitos anos depois, caracterizar a produção literária modernista), possibilitando-lhe evita-os tristes acontecimentos que se seguiram ao casamento de Leonardo e Luisinha: "Daqui em diante aparece o reverso da medalha. Seguiu-se a morte de D. Maria, a do Leonardo Pataca e uma enfiada de acontecimentos triste que pouparemos aos leitores, fazendo aqui o ponto final"(o grifo é nosso).

O par central não se conforma aos padrões românticos: ele é o anti-herói malandro, picaresco, vadio, ela é desapaixonada, desengonçada e desajeitada.

As outras personagens também fogem a fórmula caracterizadora romântica: seus traços são caricaturais, deformantes, valem mais pelos defeitos e vícios do que pelas virtudes, procedimento típico do Realismo. A exposição das cenas e cenários (no espaço e no tempo) também escapa da estratégia romântica e adquire um aspecto historicizante, factual: "Era no tempo do rei. Uma das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando-se mutuamente, chamava-se nesse tempo 'O canto dos meirinhos', e bem lhe assentava o nome, porque era ai o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe( que gozava então de não pequena consideração)"(os grifos são nossos).

Alias, percebe-se em toda narrativa a predominância do matiz característico da crônica, permitindo ao narrador fazer constantes paralelo entre passado e presente.O que se busca com essa atitude é ridicularizar os costumes das personagens envolvidas na trama e, por extensão, da sociedade da época. Ou seja, Memória de um Sargento de Milícias inscreve-se, quanto ao estilo, como uma "ovelha negra" do romantismo brasileiro. É a primeira manifestação do "romance malandro" (como diria Antonio Candido), popularesco, dessacralizador, "carnavalizado"(como diria Mikhail Bakhtin), em nossa literatura: um inovador, um antecipador de muitos procedimentos estéticos que só iriam se consolidar no estilo de época posterior, o Realismo.

Quanto a linguagem, Manuel Antonio de Almeida incorpora, em sua sintaxe, a fala brasileira em oposição á lusitana (excetuando-se os casos de colocação pronominal): emprega expressões típicas(brasileirismos), transcreve longos trechos de modinhas, e nos diálogos há uma preocupação em reproduzir fielmente ora o tom de deboche, ora os estrangeirismos, ora as interjeições, ora as ironias. Sempre atento ao cômico das palavras, dos gestos, dos caracteres, das situações, o autor busca enfatizar o tom coloquial que vai caracterizar a narrativa em toda a sua extensão.

VII. ANÁLISE DAS IDÉIAS

Manuel Antônio de Almeida(1831-1861) viveu um período de transformações culturais socioeconômicas motivadas pelo avanço científico e industrial do capitalismo. Em 1854 Schelling publicava sua Filosofia da Revelação, e Boole, Análise das Leis do Pensamento. Em 1853 Herzen publica O Povo Russo e o Socialismo. Comte, Feuerbach, Marx (Introdução à Crítica da Economia Política, 1857) e Proudhon (Da Justiça na Revolução, 1858), entre outros, divulgam suas idéias políticas e ontológicas sobre as relações entre sociedade, capital e trabalho, evidenciando que o idealismo hegeliano estava, naquele momento, em declínio.

Em outras palavras: a nova ordem mundial não podia mais contar com as religiões nem com as doutrinas que a elas se alinhavam. Ingleses, franceses e americanos estabelecem então um novo empirismo (mais douto do que aquele com o qual brincava genialmente, um século antes, David Hume), agora delineado por um "progressismo" científico e político, uma vez que até a burguesia enquanto classe dominante vai ser encarada como produto de determinadas circunstâncias históricas, devendo ser "assimilada e negada pelo processo natural e dialético de transformação social"

Em verdade, pode-se dizer que, enquanto os românticos sonhavam castos amores impossíveis, acalentavam a dor em versos carregados de tédio, solidão e morbidez, ou enclausurados suicidavam-se em nome do inefável, do indizível, Manuel Antônio de Almeida enchia de alegria, com seus folhetins semanais, o "Pacotilha" (suplemento humorístico do Correio Mercantil) e, de tabela, "suas leitoras" (como ele mesmo sinalizava no romance em questão). Permeia a obra aquele empirismo de que falamos ainda há pouco, isto é, o conhecimento que vem da experiência, da observação da realidade e não da suposição do que a vida seja ou deveria ser. Percebe-se em Memórias de um Sargento de Milícias uma postura crítica em relação aos costumes da baixa burguesia carioca. Sua arma são as entrelinhas, o dito pelo não dito, os eufemismos, as alusões, as piadas, os trocadilhos jocosos, o jogo, as sutilezas, as ironias, o riso gostoso e revelador, a um só tempo, do vigor e das mazelas sociais.

Ciganos, brancos, mulatos, caboclos, soldados, imigrantes, filhos expulsos, filhos adotivos, adúlteras, maridos traídos e amantes, maledicentes, mestres-de-reza, vadios, ricos e pobres compõem um mosaico de tipos e grupos sociais que só seriam caracterizados(e brutalizados)no Cortiço de Aluísio de Azevedo. Há uma "brasilidade" evidente nessa profusão de hábitos, valores, crenças, cores e raças, protagonizada por Leonardo, que pode ser considerada como precursor do "herói sem nenhum caráter", o genial Macunaíma de Mário de Andrade.

Como o herói do escritor modernista, Leonardo age livremente, ao seu bel-prazer e, embora devesse em certas situações ser punido, consegue sempre se arranjar. Aliás, é essa falta de caráter do herói que vai apontar para uma das idéias mais profícuas do romance: o jeitinho brasileiro com que se resolvem os problemas do dia-a-dia, sem escrúpulo, sem moral. O que prevalece é a amizade, as relações pessoais. Há uma despreocupação aí em julgar eticamente o comportamento dos indivíduos: dá-se um jeito (ou como diria Roberto Schwartz, pratica-se uma política do favor).

VIII. COMENTÁRIO CRÍTICO E VALORATIVO

Memórias de um Sargento de Milícias é um paradigma na história da nossa literatura, marco de um processo de ruptura que se daria oficialmente apenas em 1881, com a publicação de O Mulato (Aluísio Azevedo) e Memória Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis). Seu autor é um precursor, um artista, "as antenas da raça" (como diria Ezra Pound). Com cerca de trinta anos antecedência, em pleno Romantismo no Brasil, Manuel Antônio de Almeida exercita (sem manifestos ou polêmicas em jornais) muitos dos procedimentos estéticos da escola realista e da modernista. Digressões, metalinguagem, conversa com o leitor, enunciação de épocas e logradouros, amores adúlteros, herói e heroína banalizados, personagens caricatas, vícios primários e virtudes secundárias, profusão de tipos sociais, observação (opondo-se à idealização) da realidade, incorporação da linguagem mais próxima do coloquial e da falta brasileira, trocadilhos jocosos, piadas e ironias somam-se para dar uma feição inovadora a esse romance romântico que, como já dissemos do Romantismo tem apenas o chamado final feliz:casamento de Leonardo e Luisinha -apesar das "baixas", com a morte de D.Maria, de Leonardo Pataca, do padrinho e "uma enfiada de acontecimentos tristes", sumário que o narrador, metalingüísticamente, diz que poupará ao leitor.

IX. QUESTÕES À MANEIRA DO VESTIBULAR

01. Caracterize o herói de Memórias de um Sargento de Milícias e responda em que medida ele se assemelha ou se opõe aos heróis típicos do Romantismo.

02.Antônio Cândido, famoso estudioso da literatura brasileira, refere-se a Memórias de um Sargento de Milícias como um romance caracterizado por uma seqüência de situações. Comente.

03.O romance Memórias de um Sargento de Milícias veio a público entre 1852 e 1853, através de folhetins. Caracterize a linguagem empregada, associando os dados acima.

04.Quem era Maria Regalada? Por que tinha esse nome? Qual é a sua importância na trama narrativa?

05.Faça um perfil psicológico de José Manuel. Explicite suas relações.

06. Compare Luisinha e Vidinha. Relacione-as ao período literário em que foi escrito o romance.

07.No Capítulo 9 da primeira parte, o narrador, chamando a atenção do leitor sobre o "arranjei-me" do compadre, conta-nos como ele ficou rico. Faça um resumo desse episódio.

08.Caracterize o ambiente social em que transcorre a ação do romance.

09. Faça uma análise do foco narrativo de Memórias de um Sargento de Milícias.

10.(UNICAMP) No Capítulo 23 de Memórias de um Sargento de Milícias, o major Vidigal é visitado por três mulheres que intercedem por Leonardo. "O major recebeu-as de rodaque de chita e tamancos, não tendo a princípio suposto o quilate da visita; apenas, porém reconheceu os três, correu apressado à camarinha vizinha e envergou o mais depressa que pôde a farda; como o tempo urgia, e era uma incivilidade deixar sós as senhoras, não completou o uniforme, e voltou de novo à sala de farda, calças de enfiar, tamancos e um lenço de alcobaça sobre o ombro, segundo seu uso. A comadre, ao vê-lo assim, apesar da aflição em que se achava, mal pôde conter um risada que lhe veio aos lábios."

a) Compare essa imagem do major antecipa o resultado da visita das três mulheres e explique por quê.

Compare essa imagem do major com a que ele tem nos capítulos anteriores. Diga se a nova imagem do major antecipa o resultado da visita das três mulheres e explique por quê.

X. RESOLUÇÃO DAS QUESTÕES PROPOSTAS

01.Leonardo, filho dos imigrantes portugueses Leonardo Pataca e Maria da Hortaliça, nasceu de "um beliscão e uma pisadela". Sempre foi um garoto vadio, travesso, malandro, perseguido pela polícia(o major Vidigal); protegido pelos parentes e amigos, sai-se bem sempre de todas as confusões que ajuda a provocar. É o avesso do herói romântico; não é exaltado pela força, pela beleza, nem pela nobreza do caráter. Vale mais pelos seus defeitos e artimanhas do que pelas virtudes. Lembra muito o herói pícaro (malandro) ou o herói de Mário de Andrade (Macunaíma) pela sua postura amoral, sem caráter, sem preocupação ética.

02. Memórias de um Sargento de Milícias situa o herói, no espaço e no tempo, "na época do rei" D. João VI, "no Rio de Janeiro", desde o primeiro capítulo (origem, nascimento e batismo), sumariando as aventuras de Leonardo. Faz-se encadeamento dessas peripécias até o casamento do herói com Luisinha. O Rio desse período era formado por famílias mal organizadas (desajustadas), espertalhões, imigrantes, ciganos, vadios, com suas festas, suas danças, suas modinhas, suas procissões, sua política e seus enterros e casamentos. O romance é composto por pequenos relatos capitulados sobre esses acontecimentos numa narrativa linear, cronológica.

03. Apesar de escrito no auge do Romantismo brasileiro, Memórias de um Sargento de Milícias apresenta uma linguagem simples, clara e objetiva, próxima da fala brasileira, do registro coloquial. A literatura, enfim, popularizava-se através dos periódicos jornalísticos, atendendo uma carência por histórias sentimentais e de suspense, típica dos leitores (leitoras) dessa época. Manuel Antônio de Almeida vai ainda além, e sabendo que se trata de distração, estrutura sua narrativa com uma linguagem referencial, mesclada a brasileirismos, onde vai predominar o cômico (com suas ironias), lembrando muito, através dessa linguagem despojada, a crônica de costumes.

04. Maria Regalada era amante do major Vidigal. Tinha esse nome porque seu temperamento era alegre: ria por qualquer coisa, demoradamente. Sendo conhecida como D. Maria, ajudou não só a evitar as punições de Leonardo como também estimulou o major Vidigal a promovê-lo sargento.

05. José Manuel tinha mais ou menos 35 anos e era muito falador e maledicente. Gostava de contar longas histórias sobre si mesmo e sobre os outros, ao menor pretexto. Casa-se com Luisinha, pois era bem vindo à casa de D.Maria. Depois do casamento deixa Luisinha enclausurada. Morrendo, abre espaço no coração de Luisinha para Leonardo.

06. Ambas despertam o amor em Leonardo e na narrativa representam opostos. Luisinha era magra, branca, pálida, introvertida, desajeitada, desarrumada, sem atrativos. Casada permitiu ser enclausurada pelo "marido-dragão". Vidinha era uma mulatinha arredia a casamento ou clausura, "formidável namoradeira" bela e escultural, sedutora, cheia também de dotes musicais. Nenhuma corresponde ao tipo característico de mulher do Romantismo: estão longe da deusa inatingível, do anjo puro e lindo, casto e virginal, sem vícios ou defeitos.

07. O compadre havia sido um "enjeitado", fora criado por um barbeiro com quem aprendera o ofício. Já adolescente, rebela-se contra o "mestre" e tutor por causa da partilha dos ganhos e dos serviços domésticos aos quais era submetido. Sai de casa apenas com uma bacia de barbear, um par de navalhas e outro de lancetas (para sangrias). Conhecendo um marujo, acaba embarcando num navio negreiro e lá, além de barbeiro, transforma-se em médico de plantão. Bem sucedido nas primeiras sangrias, ganha o respeito da tripulação. É chamado para atender o capitão do navio, que havia adoecido. Depois de alguns dias e algumas sangrias, o doente piora. O capitão chama o "médico" e lhe confia toda a sua fortuna (moedas em ouro e prata) para que fosse entregue a filha dele (capitão). Morto o capitão, o compadre-barbeiro esquece o pedido e "herda", isto é, apropria-se, da fortuna.

08.Trata-se de baixa burguesia carioca, em meados do século XIX, formada por profissionais liberais, barbeiros, meirinhos, granadeiros, marujos, oficiais de polícia, tenentes, padres, mestre de reza, parteiras, caça-dotes, vagabundos, vadios, ciganos. É importante notar que os negros, ainda cativos, são superficialmente mencionados no romance (no Capítulo 9, como pano de fundo para a narrativa do episódio que explica a origem da fortuna do padrinho de Leonardo).

09.O foco narrativo está em 3ª pessoa, com traços específicos de intrusão. É o chamado "autor onisciente intruso": o narrador expõe o que fazem e pensam as personagens, disserta sobre os costumes e a moral da época, faz digressões e comentários metalingüísticos.

10.O major Vidigal nos é apresentado como um disciplinador rígido, sisudo, severo no cumprimento da lei. Temido por todos, simboliza a própria justiça, imparcial, neutra. Quando aparece em tamancos, desarrumando, sem a disciplina no vestir-se que o caracterizava, deixa entrever que a sua austeridade poderia ser vencida, isto é, que o pedido das três senhoras" em comissão" a favor da libertação de Leonardo seria atendido, suposição que se confirma no final do capítulo.
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Federal de Juiz de Fora encerra inscrições.Estudar na Federal não tem preço!. Marcou bobeira tem de estudar na Uni-Esquina...

Semi UFABC - Inscrições abertas!

Você se cansou de salas superlotadas? Muita bagunça? Professor fraquinho? Material desatualizado? Mude de curso! Venha para o Superium! Aqui as turmas são do tamanho adequado à sua aprovação nas Públicas: 50 alunos por sala. Os professores são FERAS. Livros digitais impressionantes!
Superium, o melhor cursinho do ABC! Agora, no primeiro semestre, com o Semi UFABC FATEC!

SENAI-SP oferece cursos superiores de tecnologia

O SENAI oferece curso Superior de Tecnologia Mecatrônica e curso Superior de Tecnologia Ambiental Industrial entre outros.

FATEC-SP divulga calendário de provas

UNIFESP tem também campus em Diadema, em Santos e em Guarulhos

Federal de São Paulo divulga datas do seu vestibular. Agora, além dos melhores cursos de Medicina, Fonologia e Enfermagem do Brasil, a UNIFESP oferece Psicologia e Educação Física, entre outros. Confira.

UFOP divulga aprovados

Veja os aprovados da UFOP. Veja também a relação candidato-vaga

UFBA divulga aprovados da 1ª fase

Veja os aprovados também da UFRB.

UFAL

Veja a relação candidato-vaga.

UFU divulga aprovados

Veja os aprovados da Federal de Uberlândia. Veja também a relação candidato-vaga nos 23 cursos oferecidos pela instituição

Aprovação garantida

Fuja da "uni-fapone"! Faça Universidade Pública. É melhor! Só o Superium tem aprovação garantida! Superium, o cursinho que aprova mesmo!

UFPR aprovados da 2ª fase

A UFPR-Litoral oferece cursos de Fisioterapia, Gestão Ambiental, Gestão e Empreendedorismo e Serviço Social.

Parabéns aos nossos alunos Superium vencedores que foram aprovados na FUVEST, na UFSC, na UEL, na UNICAMP, na UNESP, na UFSCar, na Faenquil, na UNIFESP, na UFABC, na UFV, UFMG, na FATEC! Nas Públicas, porque esse é o nosso compromisso com você!!

LINGUAGEM ARTÍSTICA E ARQUITETÔNICA

Em breve, aos Sábados: das 8h30 às 11h30
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Aluno Superium: mensalidade r$160
Curso de Preparação para as provas específicas de habilidade artística e arquitetônica

SEMÂNTICA

Aos sábados!
Prof. Gomes
Aluno Superium: mensalidade, só r$50
Curso de Imersão Total na FUVEST, UNICAMP, UNESP
Com todas as dicas que você precisa para se dar bem em Interpretação de Textos nos vestibulares


SUPERIUM
O cursinho no ABC que mais aprova nas Universidades Públicas!
INFORMA:
Já temos os primeiros aprovados do ano nas Públicas!! de Pelotas/RS (UFPEL), de Lavras/MG (UFLA), de Londrina/PR (UEL), de Maringá/PR (UEM) e de Florianópolis/SC (UFSC) e de São Paulo: em São Carlos na UFSCar, na UFABC, na UNIFESP, na FATEC/SP, na UNESP, na UNICAMP e na USP!!!
Confira aí ao lado: Medicina, Direito, Economia, Secretariado Bilíngue, Terapia Ocupacional, Agronomia, Música, Química, Engenharia de Materiais, Estatística, Terapia Ocupacional, Enfermagem, Fonoaudiologia, Matemática, Medicina Veterinária, Ciências da Computação, Psicologia, Letras, Comunicacão Social, Dança, Educação Física, Ciências Sociais, Engenharia Ambiental, Relações Internacionais !
Só o SUPERIUM já chegou lá!!

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Preços especiais para alunos das ETEs: Júlio de Mesquita, Lauro Gomes e Jorge Street
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